terça-feira, 30 de junho de 2015

PANTCHA-TANTRA - POSTAGEM 9

     12 – CONTO DOS TRÊS PEIXES

  Três peixes viviam em um lago. Seus nomes eram Anagatavidhata, Pratyutpannamati e Yadbhavishya. Alguns pescadores passaram pela lagoa e disseram: “Nunca vimos esta lagoa. Parece ser cheia de peixes. Agora está tarde. Vamos entrar na madrugada de amanhã com um saco e pegar todos os peixes que pudermos”.
     Ouvindo o pescador, Anagatavidhata (aquele que prevê o perigo a tempo) convocou uma reunião com todos os peixes e lhes disse: “Vocês não ouviram os pescadores? Devemos sair da lagoa esta noite. Como disseram os sábios, os mais fracos devem fugir quando o mais forte os invade, ou devem buscar refúgio em uma fortaleza. Os pescadores virão amanhã. Acho que não devemos estar aqui nem mais um minuto”.
     “É verdade. Concordo com a sua sugestão”, disse Pratyutpannamati”.Vamos para outro lugar. Quem tem medo da terra estrangeira ou é muito arraigado ao seu solo, vai morrer em seu próprio país. Já aquele que pode prosperar em qualquer lugar, não morrerá em sua própria terra por excesso de sentimento”.
     Rindo alto, Yadbhavishya disse: “Seus planos não são bons. Por quê devemos deixar esta lagoa, antiga casa de nossos antepassados? Só porque os pescadores têm más intenções? Se for o nosso destino, não poderemos escapar da morte, mesmo indo para outro lugar. Tudo está nas mãos de Deus. Você não pode alienar o que ele propõe. Sem suas bênçãos, pessoas vão morrer, mesmo que tenham proteção. Com suas bênçãos, ninguém pode matá-las, mesmo que elas não tenham proteção”.
     Incapazes de convencê-lo, os outros dois peixes deixaram a lagoa. Na madrugada seguinte, os pescadores levaram uma grande quantidade de peixes da lagoa. Yadbhavishya foi um deles.
     A fêmea retomou: “Por isso lhe disse que aqueles que prevêem o problema e o enfrentam, sempre são vencedores, e aqueles que confiam apenas na sorte são os perdedores”.
     Seu marido perguntou: “Então você acha que sou tão estúpido como Yadbhavishya? Espere e verá o que farei. Vou sugar toda a água do mar e deixá-lo seco”.
     “Não tente acertar contas com o Mar. Isso não lhe trará nenhum bem. A ira de um fraco só causará feridas nele mesmo”.
     “Não me desencoraje. Aqueles que têm confiança podem confrontar os mais fortes. O leão, menor em tamanho, não arrancou a coroa ao elefante poderoso? Acenda um pequeno pavio e ele repelirá as trevas. Que tem coragem, sim, é o mais forte. Veja como vou drenar toda a água do mar e torná-lo seco”, disse o macho.
     “Mas centenas de rios desaguam no mar. Seu bico é tão grande quanto uma gota. Como você pode consumir toda a água do mar? Pare com essa conversa de altura”, aconselhou a fêmea.
     “Não se desesperar é vencer a Deusa da Riqueza. Eu tenho um bico de ferro. Vou trabalhar dia e noite para drenar toda a água”.
     A esposa: “Certo, se você quiser combater o Mar, chame todos os seus amigos e tentem fazer o trabalho juntos. Um grupo unido, mesmo um grupo fraco, é difícil derrotar. Mesmo folhas de grama podem amarrar um elefante, se forem tecidas em uma corda. Você não ouviu a história de como um pardal, um pica-pau, uma mosca e um sapo mataram um elefante”?
    “Deixe-me saber como eles fizeram isso”, perguntou o faisão masculino.
    A fêmea começou a contar a história.

     13 – O ELEFANTE E O PARDAL

     Dois pardais, marido e mulher, construíram um ninho em uma figueira e ali colocaram seus ovos. Certa tarde, um elefante selvagem veio em direção à árvore, à procura de abrigo contra o sol. Incapaz de suportar o calor, o elefante de repente enlouqueceu e tirou um grande galho da árvore, esmagando os ovos do pardal no ninho. O casal de pardais de alguma forma escapou da fúria do elefante, mas a esposa começou a chorar por seus ovos.
     Um pica-pau, amigo próximo do pardal, ouviu seu choro e, tocado por sua dor, perguntou:
     “Por quê você está chorando, meu amigo? Sábios não lamentam o que está perdido, o que está morto ou o que é passado. Essa é a diferença entre um instruído e um iletrado”.
     A fêmea disse: “Esse elefante covarde destruiu toda a minha descendência. Se você é de fato meu amigo, mostre-me uma maneira de matá-lo. Na minha visão, quem prejudica uma pessoa em apuros ou quem ridiculariza alguém que sofre, merece ser punido e quem pune essa pessoa não tem renascimento”. 

    “O que você diz é certo”, disse o pica-pau”.O verdadeiro amigo vem em seu auxílio quando há necessidade. Todo mundo é simpático quando você prospera, mas do contrário... bem, você vai ver como eu sou engenhoso. Tenho uma amiga que é uma mosca. Com sua ajuda podemos matar o elefante”.
     Levando a fêmea com ele, o pica-pau chamou a mosca e lhe disse: “Esta é minha amiga mais querida. Um elefante selvagem esmagou seus ovos. Você deve de alguma forma encontrar uma maneira de matar aquele elefante. Precisamos da sua ajuda”.
     A mosca disse, “Tenho um amigo que é um sapo. Vamos pedir sua ajuda também”.
     A fêmea, o pica-pau e a mosca foram até o sapo e contaram a história de sofrimento da pobre pardal. O sapo disse: “O que é um elefante diante de uma multidão unida como nós? Façam como eu lhes digo: mosca, voe até o elefante quando o sol estiver alto e cantarole uma melodia doce aos seus ouvidos. Quando ele fechar os olhos em êxtase, o pica-pau vai vazar seus olhos com o bico. Ele se torna cego e com sede e vai procurar água. Eu vou para uma areia movediça e começo a coaxar lá. Pensando que estou na água, o elefante irá até lá e afundará na areia movediça”.
     Todos os quatro desempenharam suas funções de acordo com o plano do sapo, e provocaram a morte do elefante”.

     No final da história, a fêmea do faisão disse ao marido: “Foi assim que os quatro amigos, juntos, mataram o elefante”.
     Impressionado com a sabedoria de sua esposa, o marido disse: “Ok, vamos chamar nossos amigos e com a sua ajuda esmagar o mar.” Quando o macho reuniu seus amigos (os grous, os pavões, os cucos e outros pássaros), contou-lhes a história de como o mar tinha matado seus filhos e como era necessário drená-lo por inteiro. No final ele disse: “Nós não podemos fazer este trabalho. Vamos a Garuda, emissário do Senhor Vishnu, e dizer-lhe o que aconteceu. Ele vai ficar com raiva do que o mar fez para sua espécie. Certamente se vingará do mar”.
     Lamentando e chorando, todas as aves foram ao encontro de Garuda e disseram-lhe: “Ó senhor, precisamos da sua ajuda. O mar destruiu os ovos do casal de faisões. Este é um duro golpe para todos os pássaros da comunidade. Se você não intervir, ele vai destruir nossa tribo inteira. Os antigos sempre disseram que um ímpio é uma inspiração para outros com más intenções”.
     Movido por sua história de tristeza, Garuda pensou consigo mesmo: “Estas aves têm uma reclamação legítima. Eu punirei o mar”.
     Nesse momento, um enviado do Senhor Vishnu chegou e disse a Garuda que o Senhor lhe tinha enviado porque Ele precisava viajar para Amaravathi em missão divina. Portanto, Garuda devia acompanhá-lo.
     Garuda disse ao enviado: “Não posso ir. Não sou um servo útil. Ele encontrará outra pessoa. Por favor, transmita meus cumprimentos ao Senhor”.
     Surpreso com as palavras de Garuda, o enviado disse: “Garuda, você nunca proferiu tais palavras para o Senhor. Deve o Senhor forçá-lo a ir? Responda-me”.
     “Veja, este mar, habitat do Senhor, engoliu os ovos do casal de faisões. Se o Senhor não castiga o mar por isto, não vou servi-Lo. Esta é a minha decisão e você pode transmiti-la ao Senhor”, disse Garuda.
     Informado da má vontade de Garuda, Vishnu disse a si mesmo: “Garuda tem razões para estar chateado comigo. Irei eu mesmo recebê-lo com respeito. Se o rei está satisfeito, ele pode dar só dinheiro. Mas quando o mestre respeita seu servo, este estará pronto a sacrificar sua vida pelo mestre. É prudente que eu o visite e o tranquilize”.
     Quando Vishnu chegou-lhe ao encontro, Garuda se sentia culpado por ter dito palavras duras sobre o Senhor, e disse: “Ó Senhor, o mar, que gosta de sua proteção, roubou os ovos de meus servos e, portanto, me insultou. Apenas por respeito ao Senhor não tomei ainda nenhuma medida contra ele”.
     “É verdade. Os sábios dizem que um mestre é responsável pelos delitos de seus servos. Tais delitos, mais do que ao servo, ferem ao mestre. Venha comigo. Vou recuperar os ovos do mar e fazer o casal de faisões feliz novamente. Mais tarde iremos para Amaravathi”, disse o Senhor Vishnu.
     O Senhor então pegou seu raio e apontou-o para o Mar, advertindo-o, “Você, ser perverso, devolva os ovos para o casal de aves. Caso contrário, tornarei o mar um deserto”.
     Assustado, o mar voltou os ovos para os faisões. O pássaro macho entregou-os a sua esposa.

     “A partir desta história”, disse Damanaka a Sanjeevaka, “é evidente que aquele que desafia um inimigo sem conhecer sua força perece no final”.
     “É verdade, mas como eu posso saber se Pingalaka tem maus desígnios contra mim? Temos sido muito amigáveis. Isso torna difícil, para mim, pensar em matá-lo”, disse.
     Damanaka: “Ele olha para você com raiva, quando tem maus pensamentos em mente. Caso contrário, você pode seguramente achar que ele é o mesmo velho amigo afetuoso. Mas se você decidir deixar o lugar, faça-o após o ocaso. Os antigos disseram que deve-se sacrificar um indivíduo pelo bem da comunidade, desistir de castas pelo bem da aldeia e entregar a aldeia pelo bem do país. É desejável economizar dinheiro para gastá-lo em uma crise; usar o dinheiro para salvar sua esposa; e desistir da esposa e do dinheiro para salvar a si mesmo”.
     Depois de dar este conselho a Sanjeevaka, Damanaka foi ver Karataka. Saudando-o, Karataka disse: “O que aconteceu com a sua missão”?
     “Acabo de semear a discórdia entre os dois amigos. O resto está nas mãos de Deus”, disse Damanaka.
     “Conte-me como fez isso”.
     “Contei histórias de um para o outro e consegui dividir os amigos. Você não vai vê-los novamente juntos”.
     “Oh, você não fez nada de bom. Separou dois bons amigos. Você fez com que se odeiem. Uma má pessoa entende apenas de prejudicar, não de ajudar”.
     “Você não conhece a ciência política. Por mais forte você seja, a menos que mate o inimigo ou a doença logo no início, seu inimigo ou a doença irá matá-lo no final. Sanjeevaka nos roubou o ministério e por isso é nosso inimigo. Obtive garantias do rei para ele e trouxe-o para nossa corte. E hoje, ele já derrubou-nos do nosso escritório. É por isso que tenho planos para matá-lo. Se ele quiser se salvar, deverá deixar este lugar. Sábios, como Chaturaka, não hesitam em prejudicar outros para alcançar seu objetivo. Tolos como o leão não podem desfrutar sequer do que eles mesmos ganharam”.

     A pedido do Karataka, Damanaka começou a contar essa história.

     14 – O LEÃO E O CHACAL

     Vajradanstra era um leão que vivia em uma floresta. Ele tinha dois amigos, um chacal chamado Chaturaka e um lobo chamado Kravyamukha. Por sua amizade com o leão, o chacal e o lobo tinham trânsito livre na floresta. Um dia o leão encontrou uma fêmea de camelo separada de sua caravana e em dores de parto. O leão matou a fêmea e encontrou um bebê camelo vivo dentro de seu ventre. O leão e seus amigos se alimentaram com o camelo morto, mas pouparam o bebê. O leão adotou o bebê e o levou para casa.
     O leão disse ao bebê camelo: “Você é agora meu filho. Ninguém pode prejudicá-lo. Você pode circular livremente pela floresta e viver em tranquilidade. Você tem orelhas que se parecem com um par de conchas. Por isso vou chamá-lo Sankhukarna”.
     O tempo passou e Sankhukarna se tornou um animal jovem e enérgico. Estava sempre na companhia de Vajradanstra. Um dia, o leão teve de enfrentar um elefante selvagem, e na luta o elefante feriu gravemente o leão. Agora o leão estava fraco demais para sair e caçar. Ele chamou seus amigos, o chacal, o lobo, e o camelo e lhes disse: “Procurem um animal. Eu vou matá-lo e todos nós poderemos ter uma boa refeição”.
     Os três vasculharam a floresta, mas não conseguiram encontrar um animal. Em desespero, o chacal pensou: “Se pudermos matar o camelo, teremos comida por vários dias. Mas ele é um dos favoritos do nosso rei. Ele não vai concordar em matar o camelo. No entanto, com minha astúcia, vou fazer com que o leão o mate. Os sábios disseram que nada é impossível ou proibido para um ser inteligente”.
     O chacal disse ao camelo: “Sankhukarna, nosso senhor está sem comida faz muito tempo e pode morrer de fome. Sua morte será um desastre para todos nós. Eu tenho um plano para superar este problema. Ouçam”.
     “Vá em frente. Conte-me o que tem em mente. Hei de fazer o que puder para o senhor, pois se fazemos o bem ao nosso mestre, colhemos uma recompensa cem vezes mais valiosa que aquilo que demos”, disse o camelo.
     Chaturaka, o chacal, disse: “Jovem camelo, ofereça seu corpo ao Senhor e terá o dobro em vantagem. Seu corpo também irá crescer em tamanho e também o Senhor vai continuar a viver”.
     O camelo respondeu: “Estou pronto. Deixe que o Senhor saiba que pode ter meu corpo, contanto que o Senhor dos Deveres seja testemunha do meu sacrifício”.
     O chacal, o lobo e o camelo, em seguida, convidaram o leão para informá-lo da decisão do camelo. O chacal disse ao leão: “pesquisamos toda a floresta sem encontrar mesmo um animal de pequeno porte. Agora o sol já se põe. O camelo está preparado para oferecer seu corpo, se o Senhor estiver pronto para aumentar o tamanho do corpo dele e convidar o Senhor dos Deveres para ser testemunha”.
     O leão concordou com a proposta. Então o chacal e o lobo se lançaram de uma só vez sobre o camelo e rasgaram-no em pedaços. Vajradanstra, o leão, disse ao chacal: “Estou indo ao rio para tomar um banho e cultuar as divindades. Até eu voltar, mantenha o olho sobre este alimento”. No minuto em que o leão saiu de cena, o chacal pensou em um plano para ficar com o camelo só para ele. Então disse a Kravyamukha, o lobo: “Você parece estar com muita fome. Vá em frente e faça a festa na carne de camelo. Quando o leão vier vou convencê-lo sobre sua inocência”.
     O lobo começou a saborear a carne. Então o chacal o alertou de que o senhor estava voltando e que, para dissipar qualquer suspeita, ele deveria parar de comer e deixar o local. Quando o leão chegou, viu que faltava o coração do camelo. Irado, rugiu e disse: “Quem é o culpado, eu vou matá-lo”!
     O lobo então olhou para o chacal, para que ele convencesse o leão de sua inocência. Mas o astucioso chacal disse: “Você não atendeu meu aviso e comeu a carne. Por quê acha que devo ajudá-lo”? Percebendo o perigo, o lobo fugiu da cena para salvar sua vida.
     Enquanto isso, uma caravana de camelos, passando por onde estavam o leão e o chacal, planejavam o próximo movimento. O camelo tinha que levar um grande sino amarrado ao pescoço. Assustado com o som do sino, o leão mandou o chacal descobrir que som era aquele. Ele não tinha ouvido tais sons em sua vida. Fingindo, o chacal saiu da vista do leão e gritou: “Senhor, corra para salvar sua vida”!
     “Qual é o problema?”, o leão perguntou. Por quê você me assusta? Quero saber claramente o que está acontecendo”.
     O chacal disse: “Meu senhor, o Senhor da Morte está com raiva porque você matou o camelo antes da hora em que sua morte era devida. Ele está chateado e prometeu que receberá de você mil vezes mais do que o valor do camelo que matamos. Foi o Senhor da Morte que pendurou o sino de chumbo no pescoço do camelo. Ele também trouxe todos os antepassados do camelo”. O chacal, assim, enganou o leão e o fez fugir apressado do local, deixando o corpo do camelo para o chacal banquetear-se.
     Damanaka continuou, “Por isso lhe disse que o esperto protege seus interesse, e nunca compartilha seus segredos com os outros, como Chaturaka, o chacal, fez nessa história”.
     Sanjeevaka pensou, “Por quê eu agi desse modo? Um vegetariano que serve a um comedor de carne! O que devo fazer e onde devo ir? Talvez Pingalaka possa me poupar já que me deu garantias. Às vezes, quem se porta de forma ética pode ter sérios problemas. Todo ser vivo pratica ações boas e ruins, e vai colher as conseqüências no próximo nascimento. Então, não podemos escapar do que o destino reservou para nós”.
     Com esses pensamentos em sua mente Sanjeevaka fui ver Pingalaka, o leão, e sentou-se sem cumprimentá-lo. O leão também foi surpreendido com a arrogância do novilho e, acreditando no que Damanaka lhe dissera sobre Sanjeevaka, se lançou sobre ele rasgando-o com suas garras. Sanjeevaka também começou a atacar o leão com seus chifres.
     Vendo que o chacal e o leão estavam determinados a lutar até o fim, Karataka disse a Damanaka: “Insensato! Você criou um racha entre os dois amigos. Se nosso senhor morre, como você poderá ser ministro? Como aspira ministro, se não conhece os princípios da diplomacia? Provocadores de guerra como você nunca alcançam seus objetivos. Você não deve usar a força quando existe espaço para a paz. Um dos dois está fadado a morrer. Salve a situação, se puder. Não, é loucura minha querer lhe dizer o que é bom e o que é ruim. Os anciãos disseram que não se deve pregar para quem não é discípulo. Você tem o exemplo do pássaro Suchimukha”.

     “Estou ansioso para saber qual é”, disse Damanaka. 

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