domingo, 22 de abril de 2012

TEATRO-EDUCAÇÃO: EXPERIÊNCIAS DO DIA-A-DIA - PARTE 5

TEATRO-EDUCAÇÃO:
EXPERIÊNCIAS DO DIA-A-DIA
5ª. PARTE 
Registrado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional sob o nº. 014665-V02

     Dia 16:

     Maternal – Comecei hoje a desenvolver com a turma um trabalho baseado na exploração de sons e movimentos, podendo ser figurativos ou não. De uma maneira geral foi interessante, mas a concentração e o individualismo da turma, típicos da idade, continuam sendo bloqueios a um trabalho mais consistente.

     Jardim I – Continuei explorando o jogo de brigar/dançar rápido/em câmara lenta. Eles gostam mais de explorar os movimentos em velocidade rápida, aliás querem acelerar a velocidade até o máximo possível. A “câmara lenta” os deixa meio impacientes.

     Jardim II – Continua a resistência das meninas, que aos poucos (muito aos poucos) vai se afrouxando. Ludmila Freire é a que mais entra no jogo. Sua xará, Ludmila Silas, ao contrário, é uma das mais quietas. Não faz nada, e também fala pouco.

     Com os meninos, o pique vem subindo cada vez mais. Mas ainda existe uma dubiedade entre a participação efetiva e uma participação reticente, como se continuassem me testando.

     Dia 23:

     Maternal: continuamos desenvolvendo os jogos de ritmo (rodinha, batendo com as mãos e os pés), que gradativamente vão criando imagens até desembocar em uma representação concreta (geralmente com bichos).

     Rodinha, batendo com as mãos e os pés: jogo bem simples: o grupo se senta em roda, e o professor bate com a mão e/ou o pé no chão, pedindo que a turma faça o mesmo. Procura-se a partir daí desenvolver percepções de intensidade, quantidade, ritmo. Por exemplo, bato apenas com a mão no chão, uma única vez, emitindo a palavra “UM”! Peço que eles repitam essa ação. Depois bato com os pés no chão, por duas vezes, falando “UM, DOIS”! Assim sucessivamente, variando-se o máximo possível o número de batidas com as mãos e com os pés, experimentando também intensidades diferentes. Se necessário, um tatame ou um piso de E.V.A. impede que eles possam machucar a s mãos.

     Os exercícios que tenho feito com eles buscam estimular as noções rítmicas e a exploração de potencialidades da voz. O ritmo traz sempre uma cadência para o corpo, uma movimentação que segue uma espécie de compasso, quase uma dança. Em crianças observa-se claramente como a estimulação através de um determinado ritmo provoca uma cadência corporal. Mesmo quando são bebês, se você começa a batucar um ritmo ou cantarolar alguma coisa, eles prontamente começam a balançar o corpo suavemente para os lados ou para cima e para baixo (já o hábito de bater palmas durante uma música me parece um vício imposto pela escola – mesmo que você cante uma modinha suave e lenta como “O cravo e a rosa”, as professoras começam imediatamente a bater palmas freneticamente, em compasso mil por mil e volume de trezentos decibéis, como se você estivesse tocando um punk-rock).

     Essa cadência corporal, que se aproxima de uma dança, tende a deixar de ser puro acompanhamento rítmico para se tornar lentamente algo de figurativo, uma representação concreta. Da mesma maneira o som, que de início é emitido de maneira mais ou menos gratuita, sem caráter de representação, passa a ter um significado, passa a ser o som “de alguma coisa” – o som de um cachorro, de um gato, de um passarinho, quase sempre o som de um animal. É geralmente por essa via que a estimulação através de som, movimento e ritmo se encaminha para a figuração de animais. A representação de algum tipo de máquina, geralmente um veículo (um carro, uma moto ou um avião) é o segundo colocado na preferência geral da nação. Outras formas de representação podem surgir, mas essas duas são as mais comuns.

     Jardim I – Os jogos com intensa movimentação continuam sendo os que mobilizam a turma. Algumas crianças, como Rodrigo, Leandra e Jorge, nem sempre participam. Quando isto acontece, Artur, Breno, Cauan e Alessandro puxam as situações para o lado mais agressivo. Camila equilibra, com propostas mais suaves. Sofia é a mais dispersa.

     Jardim II – Achei que poderia ser interessante começar a desenvolver com eles um trabalho com base na exploração de um determinado ambiente, a exemplo do que vinha fazendo na Pequeno Degrau, por essa mesma época. Se ainda não havia testado essa modalidade de trabalho aqui, apesar de ela estar funcionando em outra creche, é porque queria continuar experimentando uma certa linha de jogos que parecia dar muito bons resultados em certo momento e não funcionar tão bem em outros.

     Para descarregar um pouco de energia, propus também aqui a corrida de sapos. Funcionou. Eles participaram com disposição, inclusive Ludmila Freire, Sofia e Laila. Inês quase entrou no jogo, mas se retraiu e voltou a se sentar. Depois da corrida, passamos para a construção do ambiente.
     Propus que explorássemos uma floresta, fazendo menção aos aspectos de luz e som: encostei as janelas para conseguir um ambiente de penumbra (eles automaticamente começaram a falar mais baixo, quase sussurrando, como se a pouca luz trouxesse como condição o silêncio, ou uma certa solenidade). As meninas (todas elas) se interessaram por algum aspecto deste ambiente imaginário (talvez por seu caráter misterioso), e passaram a “passear” pela floresta, pé ante pé, muito concentradas. Todos eles, meninos e meninas, simulavam algum tipo de arma na mão. Lembrei em seguida dos sons que alguns animais de uma floresta fazem: pios de pássaros, de corujas, lagartos que rastejam sobre as folhas no chão, insetos. Eles, logicamente, lembraram-se das feras e seus rugidos. E dá-lhe fera rugindo pra tudo que é lado. As feras então começaram a se atacar umas às outras, o que começou a provocar o afastamento das meninas. Busquei atraí-las novamente, usando o palco para simular uma caverna, onde estaríamos protegidos das feras. Isso funcionou para Ludmila Freire, Fernanda e Laila, mas Ludmila Silas, Inês e Sofia tomaram mesmo o “caminho da roça”: o tampo da mesa onde elas se sentavam como um totem. Apesar disso, a participação delas é gradativamente maior, tanto em número quanto em duração no tempo.

     Enquanto isso, as feras continuavam se atacando, e algumas delas tentavam invadir nossa caverna, fazendo com que eu temesse a desistência das três meninas que ainda participavam. Algumas feras, percebendo o perigo que corríamos, começaram a nos defender. O grupo dos meninos dividiu-se então entre as feras que atacavam a caverna e aquelas que a defendiam. Em meio às constantes lutas, alguns animais começaram a morrer, só pra variar.

     Manifesta-se novamente uma certa tendência que eu já havia presenciado na Primeiro Degrau. Ali, referenciei a coisa como uma maneira de despertar culpa no professor e requisitar sua atenção. Mas talvez a coisa vá além disso. Curiosamente, essa curiosidade, ou sei lá que outro termo usar, em relação à morte começa a surgir com outras turmas também.

     Dia 30:

     Maternal – Os jogos de ritmo começam a funcionar com mais harmonia. O interesse da turma tem aumentado e a participação é cada vez mais maciça. No desenvolvimento de cada aula, as atividades sempre acabam sendo levadas, pelas próprias crianças, para a representação de animais.
     Mayara ainda se assusta às vezes. E Renan começou a participar um pouco, apresentando até propostas.
    
     Hoje houve um dado radicalmente novo: fizemos o enterro de três galinhas (Joana, Fernanda e Iago Marins).
     A coisa foi assim: o jogo evoluiu normalmente, como descrito no relatório do dia 23. Quando a “dança” começava a evoluir para a figuração de bichos, Giorgio (que tem uma elasticidade física realmente invejável) colocou-se de cócoras, um pouco que imóvel. E não emitia som. Deixei ele na viagem dele, enquanto observava os outros, que representavam animais facilmente identificáveis – gatos, cachorros, leões e uma borboleta, bem silenciosa, interpretada por Isabella. Tentei ser “criativo” e perguntei qual era o som da borboleta dela. Ela me respondeu “borboleta não faz piu-piu”. Achei bem coerente.
     E Giorgio lá, de cócoras, também sem som. Perguntei qual era o seu bicho. Ele não respondeu, mas deu alguns passos, sempre de cócoras, com um meio sorriso no rosto, divertido em fazer de seu animal um mistério. Perguntei, “é um pato”? A cada pergunta, ele não respondia, mas continuava se locomovendo, e às vezes balançava a cabeça, talvez querendo com isso dar alguma pista. A turma, vendo que eu dava atenção a ele, meio que parou o jogo e ficou olhando também. “Acho que é uma galinha”, sugeriu Renan. Ele parou um pouco, pareceu refletir e aderiu. Não sei se essa era mesmo a sua opção inicial, mas o fato é que ele passou a se movimentar mais, fazendo “co-có”. Pronto. A turma adorou e todo mundo virou galinha, depois algumas galinhas viraram pintinhos e taí, estávamos na granja. Comecei a brincar com estímulos externos para aproveitar ao máximo aquele momento, em que pela primeira vez eu tinha o Maternal inteiro brincando conjuntamente numa representação que eles mesmos haviam desenvolvido. “Está chovendo, como as galinhas vão se proteger da chuva? E os pintinhos? O chão está cheio de lama, como é que as galinhas andam na lama”? A cada sugestão eles respondiam com uma busca de alguma coisa que fosse diferente da ação anterior. Era uma constante busca de algum tipo de forma. Ao mesmo tempo, havia a construção de uma sequência lógica, ao sairmos da exploração rítmica e evoluirmos até o estabelecimento de um ambiente.

     Subitamente, uma galinha “morreu” (Iago Marins – é curioso também como ocorre esse recurso: frequentemente, os animais morrem “do nada”, sem um motivo aparente, sem nenhuma ação desenvolvida por outro personagem; apenas se morre, e pronto). Tentei reanimá-lo de todo jeito, mas ele morreu bem morrido. “Vai ter que enterrar”, falou Joana. Imaginei se não seria macabro fazer uma cena de enterro na aula, mas o clima todo era tão descontraído e bem humorado que me pareceu possível. “Certo, vamos enterrar a galinha. Teremos que cavar um buraco”. Começamos todos a cavar. Iago se levantou e começou a cavar também. Fiquei pensando se deveria ou não buscar coerência na ação, lembrando que ele havia morrido. Como se lesse meus pensamentos, ele mesmo falou “ah, não, eu morri” e voltou a se deitar. Com o buraco cavado, pegamos a galinha (pedi que a própria turma o levantasse, pelos braços e pernas, enquanto eu mesmo sustentava suas costas) e o levamos para o buraco. Essa ação de ser carregado despertou interesse, e assim Joana e Fernanda resolveram morrer também. Toca a enterrar as duas. É claro que todos queriam morrer e ser enterrados também, mas a aula estava acabando. Me comprometi a repetir o jogo na próxima aula.

     Jardim I – Hoje o tema central foi “fantasmas”. Estranhamente, o tema de morte surge aqui também – talvez até de forma caricata (aliás, esse Jardim I é um exemplo de bom humor), mas surge. Cobriam a cara com a camisa e se assustavam mutuamente. Depois virou pique-fantasma, onde quem era tentava pegar quem não era. Enfim, é o tema da morte surgindo em todas as turmas. Agora, dorme com esse barulho.
     Rodrigo, Leandra e Daniela, como de costume, só participaram de metade da aula. Antes dos fantasmas, para utilizar outro aquecimento que não apenas a corrida de sapos, houve uma sessão de cambalhotas, único momento em que Sofia tomou parte.

     Jardim II – A idéia, dentro da continuidade da perspectiva de exploração de ambientes imaginários, era uma fazenda. O que foi que eles fizeram? Lógico, animais, principalmente os meninos, em sua maioria. Cavalos e touros surgiram de todos os lados.
     Inês, pela primeira vez, atuou por três minutos. Começou fazendo uma fazendeira que cuidava de uma cabritinha (Laila). Depois parou e levou todas as outras com ela, inclusive Ludmila. Entre os meninos, com tantos touros, surgiu a idéia da tourada. Então foi disso que brincamos até o final da aula, alternando os toureiros e os touros.

Outubro

     Dia 07:

     Maternal – Repetimos a brincadeira da granja, com suas galinhas e seus enterros. Eu tentei fazer de novo todo o trajeto, começando com os jogos de ritmo até desembocar nas galinhas, mas eles não quiseram. Queriam ir direto pras galinhas. A aula foi tomada pelo ato de, criteriosamente, enterrar cada galinha que ainda não havia sido enterrada. Tentei nos minutos que restaram ao final da aula fazer uma pequena avaliação. Queria ver se alguém falava algo sobre suas sensações, o que é essa coisa de brincar com a morte, de se imaginar sendo enterrado. Claro que eu não queria dar caráter assustador ao negócio. De qualquer maneira, acho que eles ainda não têm como formular com clareza uma resposta como essa. As respostas se limitaram a “achei legal”. No fundo, acho que é só isso mesmo.

     Jardim I – Propus um “programa de calouros” (algo mais próximo da representação teatral propriamente dita) que só funcionou para Camila, Breno e Alessandro. Dos outros cinco presentes, Leandra, Rodrigo, Amanda e Fernanda só observavam e participavam timidamente quando eu insistia muito (sem sair do meu personagem, que era uma espécie de animador televisivo); e Artur oscilou entre a participação e a dispersão.

     Jardim II – Começamos com um “grupo de rock” (tenho tentado utilizar o palco como espaço específico para propostas que se aproximem mais da interpretação teatral): Moisés nos teclados, Breno na guitarra, eu no baixo, Michel na bateria e Ludmila Freire no vocal. Iago, sempre original, quis ser a própria bateria, que a toda hora quebrava, necessitando consertos. Inês, Mariana, Ludmila Silas e Laila, como sempre, sentadas na mesa. Fizemos uma alternação entre shows e consertos na bateria, até que a brincadeira encheu o saco e tive que passar para a brincadeira de conteúdo mais frenético: os touros.

     Dia 14: Dia do professor. Não houve aula.

     Dia 21:

     Maternal – Continuamos com os jogos rítmicos, que ainda acabam sendo levados para a representação de animais. Imaginava conseguir novamente um desenvolvimento como o da aula passada, mas não havia o mesmo entrosamento. Quando me pareceu que a dispersão era muita, tentei mudar a proposta nos minutos finais e puxar a brincadeira para a grande máquina. Funcionou bem, mas apenas com parte da turma. Creio que demorei a agir, se eu fizesse a mudança um pouco antes talvez conseguisse melhores resultados.

     Jardim I – Havia uma exposição de desenhos dos próprios alunos (de todas as turmas) na Corpo e Som. Tentei aproveitá-la como ponto de partida para as atividades. Seria possível talvez utilizá-la também como ambiente – no caso, uma ambiente concreto, e não imaginário.

     Com o Jardim I funcionou bem: era um museu de arte dentro do qual aconteciam diversos fatos, como apagar-se a luz, trancar as portas deixando todos presos, até uma inundação. Aqui, alguns inventaram roupas de mergulho para salvar os pobres coitados que se afogavam. Assim que alguém era salvo, pulava na água e se afogava de novo. Cauan foi o único que, pra facilitar, resolveu morrer de vez (os “médicos”, que surgiram como por encanto, tentaram desesperadamente salvá-lo, mas ele se recusou a sobreviver). Mais uma vez o tema da morte, para o qual não consigo encontrar a exata significação (e haverá alguma coisa de exato nessa história toda?). Quando íamos fazer seu enterro, a aula acabou. Francisco se destacou na sugestão de situações.

     Jardim II – A mesma proposta executada com o Jardim I, mas aqui não funcionou. A dispersão era ampla, geral e irrestrita. Pela terceira vez, tentei conversar “formalmente” com a turma. Mais uma vez, se mostraram disponíveis e interessados. São politicamente imbatíveis.

     Dia 28:

     Maternal – Hoje foi difícil. A turma estava em parte excitada, em parte melindrosa. Tentei de diversas maneiras colocar a turma em ação conjunta, com vários tipos de jogos, mas não deu. A debandada era geral. Em compensação, Renan começa a participar da aula, se aproximando bastante de mim e dos colegas.

     Jardim I – Dentro da proposição da exploração de ambientes, cheguei assumindo o Cacique Touro Sentado e estabeleci uma tribo de índios na sala. O pique foi ótimo. Teve de tudo: cachimbo da paz, perseguição ao homem branco (personagens de certa forma impostos, pela própria turma, a Leandra e Jorge), dança em volta da fogueira, canibalismo, homenagem a Tupã. De uma maneira geral, sempre participo diretamente da atividade, entro efetivamente na brincadeira, mas é claro que meu pique também varia. Quanto mais consigo assumir a proposta de maneira realmente consistente e palpável, mais intensa e entusiasmada é também a participação da turma.

     Jardim II – Pela segunda vez (é impressionante, apenas a segunda vez em três meses) as meninas participaram de toda a aula. A proposta foi a mesma do Jardim I (a tribo de índios), assim como a minha postura. Parece que eles confiam mais (ou, no mínimo, se sentem mais mobilizados) pelo “personagem” do que pela “pessoa” do professor.

Novembro

     Dia 04:

     Maternal – Mais uma vez, a aula foi “quebrada” entre a participação efetiva de uns e a necessidade de atenção especial de outros. A brincadeira proposta era a Máquina, mas ficava difícil manter a atenção no jogo e controlar a turma com o alarido e a dispersão. O calor excessivo ajudou consideravelmente na desconcentração geral.

     Jardim I – Continuamos explorando as possibilidades da tribo de índios. A participação, mais uma vez, foi maciça. O que eles mais gostam é de perseguir o homem branco, capturá-lo e praticar canibalismo. Se o general Rondon visse essa aula, ia ficar de cabelo em pé.

     Jardim II – Eis que pareço me aproximar da vitória. Novamente todo o time feminino participou vivamente, durante toda a atividade. É a terceira vez que chegamos a este resultado, e a segunda vez em seguida.
     É curioso (percebo agora) como a figura do índio exerce praticamente o mesmo fascínio que a figura do animal. Haverá aí algum conteúdo daquilo que consideramos “selvagem” que movimente este apreço, esta fascinação? Algo que nos afasta, mesmo que inconscientemente, de nossa inércia de civilizado e nos coloca em contato imaginário com um mundo de mais movimento e mais aventura? Será essa a função do “maravilhoso”? Nos colocar em contato com o que não somos mais – e talvez tenhamos sido um dia?

Registro final do J. E. Conto de Fadas

     As semanas de trabalho restantes, a partir de 11 de novembro de 1985, foram utilizadas pelos ensaios de diversas cenas a serem apresentadas nas festividades de encerramento de ano. Por uma série de razões, que envolvem também o nascimento de meu filho Juan, não registrei estes ensaios em relatórios diários, e faço agora uma apanhado de memória.
     Com o Maternal, fizemos uma encenação Os seis porquinhos – porque tinha muita gente querendo fazer porquinho, e só três não iam dar conta. O mesmo ocorria com o Lobo, que se não me engano eram três. Ou seja, elevamos o número de personagens pra todo mundo ficar feliz. Quem não se sentia à vontade para interpretar personagens fazia as casinhas dos porquinhos.
     Com os dois Jardins, fizemos cenas baseadas nas tribos de índios. Aqui também, a maioria das meninas, apesar de gostar da temática (principalmente quando a coisa estava em nível de jogos), preferiu fazer oca de índio ou árvore. Ou seja, no momento em que sua participação nas aulas começava a se intensificar, a ponto de eu conseguir participação maciça em duas aulas seguidas, no processo de ensaios voltaram a se retrair. E o nível de organização e objetividade das aulas, que havia começado a alcançar patamares mais satisfatórios, tornou-se ligeiramente caótico.

     Quanto aos objetivos previstos naquele “planejamento” inicial, creio que alguns deles podem ser considerados cumpridos, minimamente de forma genérica. Acho que é possível afirmar que a capacidade de comunicação de muitas crianças se potencializou com a aula – o que teria a ver com a tal da “expressividade”. Mesmo que isso faça parte do desenvolvimento natural deles, creio que minha atuação contribuiu.
     A percepção de sequências, ou a noção de encadeamento de fatos, também me parece ter sido razoavelmente estimulada durante o processo. Com o Maternal, por exemplo, isso parece ter começado a se estabelecer a partir dos jogos de ritmo. Acho que eu estava tentando alcançar esse tipo de objetivo de maneira equivocada, querendo que eles contassem histórias com fantoches e em grupo, ainda por cima. Mas a partir dos jogos de ritmo e da sequência que eles naturalmente proporcionavam (estimulação – cadência – figuração – representação), parece que a percepção de encadeamento estava sendo espontaneamente trabalhada. O melhor exemplo disso é o enterro das galinhas, em que, num espaço de 30 minutos, o jogo evoluiu da proposição aleatória de ritmos até a criação de todo um ambiente e de um grupo unificado de personagens.
     Situações semelhantes se deram também com a turma de Jardim I, como no ambiente desenvolvido no “Museu de Artes”, mesmo que o encadeamento pareça às vezes se dar através do absurdo, como na inundação. Mas por quê os encadeamentos propostos deveriam necessariamente se dar no âmbito do realismo ou da verossimilhança? Por outro lado, como disse Pirandello no prefácio de Mattia Pascal, a realidade é muito mais absurda que a ficção.
   
     A turma mais difícil de avaliar do ponto de vista do desenvolvimento é a do Jardim II. Nossa relação foi inegavelmente afetuosa – apesar dos entraves como a dificuldade de participação das meninas, a dificuldade de concentração da turma e o excesso de efusão. Essa afetividade, no entanto, parecia estar sempre se manifestando no terreno do teste, da necessidade de comprovação de alguma coisa, no sentido do “vamos ver se o professor gosta mesmo da gente”. Não acredito que isso seja consciente, mas parecia se manifestar por essa via do contínuo “por à prova”.
     Mesmo assim, em diversos momentos conseguimos um entrosamento harmônico e a execução de ações que eram simultaneamente divertidas e ricas em explorações das capacidades de cada um. Até que entramos no processo de ensaio, e quase todo o entusiasmo se arrefeceu.
     O processo de ensaios, como um todo, não deixou de ter algo de divertido. Mas era diferente do processo de jogos desenvolvido em aula. Algumas crianças, em alguns momentos, pareciam sentir-se constrangidas, no momento da apresentação. Claro que alguns adoraram, mas outros não.
     A conclusão, se não estou exagerando na avaliação, é a de que uma encenação com crianças dessa idade foi menos rica e instigante do que os jogos e brincadeiras que fazíamos nas aulas.



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