domingo, 31 de janeiro de 2010

PANTCHA-TANTRA - POSTAGEM 7

      7 – A LEBRE ESPERTA E O LEÃO SEM JUÍZO

     Bhasuraka era um leão que reinava sobre toda a selva, matando cervos, javalis, coelhos, bisões, etc. Ainda assim, nunca estava satisfeito e, evidentemente, as vítimas também não. Assim, reuniram-se em delegação e foram encontrar o rei. “Majestade”, disseram, “por quê mata tantos animais todo dia, quando só precisa de um para sua refeição? Vamos chegar a um acordo. A partir de hoje, Sua Majestade não precisará sequer sair de sua toca. Nós lhe enviaremos um animal diariamente. Isso o poupará do esforço de caçar, e a nós, poupará nossas vidas. Nossos ancestrais diziam que o dever de um rei é governar, e não destruir. Assim como a semente germina, torna-se árvore e gera frutos, assim um povo protegido por seu rei virá em auxílio deste, quando surgir a necessidade”.
     “O que vocês dizem é verdadeiro”, tornou o leão, “imponho porém uma condição: se vocês falharem, apenas um dia, em me enviar um animal, matarei todos vocês”.
     “De acordo”, disseram os animais, e tornaram à floresta sem medo, e todos os dias mandavam um de seus iguais para ser o almoço do rei.
     Certo dia, era a vez da lebre. Vagarosamente iniciou sua última jornada, quando avistou um grande poço no caminho. Debruçando-se sobre ele, viu sua própria imagem refletida na água. Subitamente teve uma idéia: “Vou dar um jeito de atrair o leão para este poço e persuadi-lo a se jogar dentro dele”.
     Já era tarde quando a lebre chegou ao covil do leão. Ele estava tão faminto e com tanta raiva que já havia decidido matar todos os animais, quando a lebre chegou e ajoelhou-se ante ele.
     “Primeiro: você é pequeno demais para meu almoço. Segundo, está atrasado demais. Vou matá-lo, e a todos os outros também”, disse o leão.
     “Meu Senhor, a culpa não é minha, nem de qualquer dos outros animais”.
     “Então me diga de quem é a culpa e eu matarei o culpado em um segundo”.
     “O pessoal havia decidido que hoje seria o meu dia. Como eu não propiciaria uma grande refeição, decidiram também enviar outra três lebres junto comigo. Quando vínhamos pra cá, um grande leão saiu de sua toca, querendo saber para onde íamos. ‘Nós vamos ao grande Bhasuraka, servir-lhe de almoço conforme nosso acordo’, dissemos. Ele respondeu que a selva pertencia a ele e que todos os animais o obedeciam. Disse também que Sua Majestade é uma fraude e desafiou-o para um duelo de força. Quem vencer será o rei. E ordenou-me que levasse Sua Majestade até seus domínios. Por isso me atrasei. Agora, Sua Majestade decide”.
     “Nesse caso”, Bhasuraka disse à lebre, “mostre-me este leão. Eu vou matá-lo e comê-lo. De acordo com os antigos, território, amizade e ouro são a recompensa da guerra. Os sábios não se põem a lutar se não existirem estes ganhos”.
     “Sim, Majestade”, disse a lebre, “o que diz é verdade. Mas este grande leão vive em local fortificado. Ele sabe que um rei sem muros é como uma cobra sem presas ou um elefante sem raiva”.
     “Chega de bobagens e me leve até ele. Não sabe que o inimigo e a doença devem ser esmagados à primeira oportunidade? Do contrário, eles o esmagarão”.
     “Mas esse leão parece ser muito forte. Certamente Sua Majestade também ouviu os antigos dizerem que ninguém deve ir à guerra sem antes avaliar sua própria força e a de seu inimigo. Quem tem pressa em encontrar o inimigo perece como a locusta no fogo”.
     Com impaciência crescente, o leão urrou: “Pra quê toda essa falação? Mostre-o a mim”! A lebre então conduziu o rei até o poço. Depois disse a ele que o outro leão estava além daquelas paredes. O rei debruçou-se sobre o poço, e, confundindo sua própria imagem com a de seu suposto inimigo, jogou-se no poço, a fim de matá-lo. Preso no poço, morreu afogado, e todos os animais da floresta viveram felizes então.

     Damanaka finalizou: “Eis como, com minha habilidade, criarei uma cisão entre Pingalaka e Sanjeevaka”.
     “Sendo assim, desejo-lhe a melhor sorte”, disse Karataka.
     Um dia, quando Pingalaka estava sozinho, Damanka visitou-o, curvando-se ante ele.
     “Não o tenho visto há muito tempo”, disse Pingalaka.
     “Terei ainda alguma valia? Mesmo assim, quando seu governo parece ameaçado, penso que devo informá-lo. Mesmo sem ser perguntado, é sempre bom advertir àqueles a quem se quer proteger da indignidade. Assim dizem os antigos”.
     “O que quer que tenha a dizer, diga-o sem hesitação”, tornou o rei.
     Reunindo coragem, Damanaka disse: “Majestade, Sanjeevaka quer prejudicá-lo. Confidenciou-me que pretende matá-lo, tomar o trono e fazer-me ministro”.
     “Sanjeevaka é meu amigo de confiança. Por quê quereria prejudicar-me”?
     “Não existem servos leais ou desleais. Não existe um só que não cobice o poder. O que fez Sua Majestade tomar Sanjeevaka em confiança? Pensar que ele era forte, apto a destruir os inimigos que ameaçam Sua Majestade. Isso nunca acontecerá. Ele é vegetariano, e Meu Rei... se banqueteia com carne. É melhor cortar relações com ele”.
     “Lembre-se que eu lhe dei minha palavra, mediante conselho seu. Como posso matá-lo, depois de lhe oferecer segurança”?
     “Meu Senhor, de acordo com os sábios, ninguém deve fazer amizade com aqueles a quem não conhece. Sabe como uma simples pulga causou a morte do carrapato”?

     Pingalaka quis conhecer a história. Damanaka contou-a.  

8 – O CARRAPATO E A POBRE PULGA



Era uma vez um carrapato chamado Mandavisarpini, que fez para si uma casinha nas dobras dos lençóis de linho branco que cobriam a cama ornamentada do rei. Um dia, o carrapato viu uma pulga subindo na cama e disse-lhe que ela havia ido ao lugar errado, prevenindo-a que fosse embora antes que alguém a encontrasse. A pulga, cujo nome era Agnimukha, disse:

“Senhor, não é digno pedir a um visitante que se retire, mesmo que seja uma pessoa indesejável. É preciso recebê-lo bem, indagar de sua saúde, dizer palavras que o confortem e instá-lo a ficar e descansar. É assim que um bom anfitrião trata seus convidados. Além disso, é bom dizer que tenho provado o sangue de uma variedade de homens e animais, porém nunca senti o gosto do sangue real. Este é composto por por ricos ingredientes e certamente tem sabor nobre. Por favor, permita-me usufruir desta delícia”.

E continuou: “Tudo que fazemos na vida, fazemos pela fome. Vim até o senhor em busca de alimento. Não é justo que drene sozinho todo o sangue do rei. Deve, na verdade, dividi-lo comigo”.

O carrapato respondeu: “Pulga, eu sugo o sangue do rei quando ele está em sono profundo. Você é impaciente. Deve esperar até que eu termine meu trabalho. Depois de mim, poderá ter o seu quinhão”. A pulga concordou.

Nesse meio tempo. o rei entrou em seu quarto para dormir. Mas a impaciente pulga começou a se banquetear no sangue do rei, antes que este dormisse. Sentindo a picada, o rei saiu da cama e ordenou e seus serviçais que procurassem o que causava seu desconforto. Os homens do rei puxaram fora os lençóis de linho branco e os examinaram detidamente. A pulga, rapidamente, havia se escondido em uma fresta do estrado. Os servos encontraram o pobre carrapato e o mataram sem demora”.

Damanaka disse a Pingalaka: “É por isso que o senhor deve matar Sanjeevaka antes que ele mate ao senhor. Aquele que abandona um amigo confiável e confia em um estranho morrerá como o sábio Kakudruma”.

“Como ele morreu”?, perguntou Pingalaka.

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