quinta-feira, 6 de agosto de 2009

PANTCHA-TANTRA - POSTAGEM 4


5 - O SÁBIO TOLO E O CHACAL

Em um mosteiro longe do convívio humano vivia um santo homem chamado Deva Sarma. Ele acumulara uma considerável riqueza vendendo roupas que havia ganhado de devotos e discípulos. A guarda desta riqueza tornou-se então uma preocupação. Como não confiava em ninguém, guardou todo o seu dinheiro em uma bolsa, carregando-a para onde quer que fosse. Ashadhabhooti, um experiente trapaceiro, percebeu que Deva Sarma não largava aquela bolsa e concluiu que ali devia haver algo de valor, começando então a planejar um modo de roubá-la.


Um dia, o trapaceiro encontrou o santo e prontamente se arrojou a seus pés, dizendo “oh, todo-sábio, tenho percebido que esta vida é uma ilusão! A juventude é passageira e os laços familiares são apenas um sonho! Rogo-lhe, mostre-me o caminho que me liberte dos laços mundanos”!
Tocado por esta humildade, Deva Sarma respondeu: “Jovem, você é um abençoado, se decidiu renunciar aos prazeres do mundo. Ouça-me: por baixa que seja sua casta, aquele que canta “Om Namahsivayah” e espalha cinza sagrada em sua testa, torna-se Siva ele mesmo e atinge o Nirvana, não mais reencarnando. Aceito-o como meu protegido, mas você não pode entrar durante a noite no eremitério, pois que aos santos é proibida a companhia de terceiros. Após a iniciação, você viverá na cabana que fica na entrada do mosteiro”.
Ashadahbhooti prometeu considerar todas as indicações do santo como uma ordem e obedecê-las cegamente. Satisfeito, o sábio aceitou o espertalhão como seu discípulo. Ashadhabhooti atendia a cada necessidade de Deva Sarma. Mas percebendo que o monge nunca se separava de sua bolsa de dinheiro, pensou: “O velho é astuto e não larga a bolsa. Como poderei obtê-la? Será que terei que matá-lo”?
Enquanto o trapaceiro vislumbrava seu fracasso, o filho de um discípulo veio chamar o sábio. Convidava Deva Sarma para ir a sua vila e comandar o ritual sagrado de seu filho. O santo aceitou o convite e dirigiu-se à vila levando Ashadhabhooti consigo.
No caminho, atravessaram um rio. Após banharem-se, Deva Sarma, querendo descansar um pouco, colocou sua bolsa de dinheiro dentro de uma colcha que levava e disse a Ashadhabhooti:




“Devo responder ao chamado da natureza. Estou deixando aqui este manto sagrado de Siva. Vigie-o”. Assim que o guru colocou-se fora de vista, o trapaceiro agarrou a bolsa e sumiu dali.
Com grande confiança em seu discípulo, Deva Sarma decidiu despender algum tempo juntando-se a uma multidão que assistia a uma furiosa luta entre dois bodes bem fortes. Ambos já tinham a cabeça sangrando, e um chacal aproximou-se, pensando lamber o sangue que pingava.




Deva Sarma viu o chacal aproximar-se da luta, e concluiu que ele morreria atingido pelas chifradas. Sua suspeita se confirmou e o chacal, golpeado, morreu. Meditando sobre o ocorrido com o chacal, o sábio voltou ao local onde havia deixado a bolsa e Ashadhabhooti. Encontrou a colcha, mas não a bolsa ou o discípulo, e entrou em pânico, gritando “Trapaceiro, o que você fez?! Perdi tudo que tinha no mundo”! Após procurar inutilmente o ladrão por algum tempo, o santo voltou para casa, inconsolável.


Damanaka perguntou a Karataka: “O quê você aprendeu com este episódio”?
“Diga você”.
“O sábio e o chacal não têm ninguém a culpar a não ser a si mesmos”.
“Em situação semelhante, o que deveríamos fazer”?
Damanaka respondeu: “Sei, sim, o que fazer. Com minha destreza, criarei um atrito entre Pingalaka e Sanjeevaka. Nunca ouviu falar que, mesmo que não se possa vencer o inimigo com flechas, pode vencê-lo pela sagacidade”?
“Espere”, disse Karataka, “suponha que o rei e o boizinho errante fiquem sabendo de seus planos. Prepare-se, então, para o seu fim”.
“Amigo, você é muito pessimista. Quando o tempo e as marés vêm contra você, ainda assim não desista. Os sábios continuam insistindo até o sucesso. Não conhece as palavras dos antigos?

A Deusa da Riqueza favorece o homem que persiste
Reze a Deus por todos os meios, mas confie em seu próprio esforço
Mesmo que não tenha sucesso, estará porém livre de culpa.

Karataka não estava convencido de que Damanaka poderia criar uma rixa entre o leão feroz e o esperto novilho.
Damanaka lhe disse: “Eis aqui como, através da astúcia, um casal de corvos salvou seus filhos de uma cobra. Todas as vezes que a fêmea punha ovos, a cobra vinha e os comia. O casal pediu conselho a um chacal amigo. Este disse que não se desesperassem, pois um pequeno truque solucionaria o problema. Era só fazer como o caranguejo que matou um grou muito guloso que estava acabando com os peixes de um lago”.
Karataka então pediu a Damanaka que contasse a história do caranguejo e do grou.

Nenhum comentário: