quarta-feira, 1 de julho de 2009

PANTCHA-TANTRA - ARTIGO DE CÂMARA CASCUDO



ORIGENS DO FABULÁRIO MUNDIAL,
A PARTIR DO CONTO DE EXEMPLO “OS TRÊS LADRÕES DE OVELHA”,
por Câmara Cascudo, in “Literatura oral no Brasil”, Editora Itatiaia/Edusp,
São Paulo, 1984, pp 282 ss.


Três homens estavam descansando debaixo de uma árvore quando avistaram um homem que trazia uma marrã de ovelha nas costas. Pensaram em atacá-lo e tomar a ovelha mas um deles uma idéia melhor e que foi aceita por todos. Saiu na estrada o primeiro ladrão e, saudando o homem da ovelha, perguntou onde ele tinha comprado aquele cachorro tão bonito. O homem explicou que era uma ovelha e o ladrão esteve teimando que era um cachorro até que se despediu.
Mais para diante o segundo ladrão apareceu e gabou muito a beleza do cachorro, embora o homem dissesse que era uma ovelha, comprada na feira. Teimou e teimou e se despediu, deixando o dono da ovelha muito desconfiado. O terceiro ladrão fez o mesmo jogo, dando as belezas do cachorro e perguntando se o homem o queria vender. Discutiu mais tempo e foi-se embora.
O homem ficou olhando a ovelha e pareceu-lhe que era mesmo um cachorro. Jogou-a fora, zangado com a compra idiota que fizera.
Os três ladrões carregaram a ovelha e almoçaram muito bem neste dia.


Versão do septuagenário Manuel Galdino Pessoa, do Sapé, Paraíba. Como o título “Um conto indiano no sertão brasileiro”, publiquei na Revista Nacional, fasc. I, tomo 2, n. I, fevereiro de 1934, Rio de Janeiro, uma variante, ouvida no interior do Rio Grande do Norte, onde os três ladrões foram substituídos por Pedro Malazarte.


A mais antiga fonte do episódio em língua portuguesa é o Orto do Sposo, de frei Hermenegildo de Tancos, monge de Alcobaça, no século XIV, volume de matéria apologética e exemplos para pregação.Era estimado e havia uma cópia na livraria de del-rei dom Duarte. No Orto do Sposo há o episódio d’ “Os Quatro Ribaldos”, de que Teófilo Braga dá uma leitura no Contos Tradicionais do Povo Português, II, n. 138, Porto, 1883. O aldeão leva um carneiro esfolado para o mercado e os quatro ribaldos perguntam, um de cada vez: “pêra que levaes assy esse cã”? E termina: “Eu cuidava que esto era carneyro; mas poys todos dizem que He cam, nom hei que faça dele, e lançou o carneyro em terra e foyse. E os Ribaldos tomaram-no”.
A história dessa história é a de inúmeros contos que vivem em nossa literatura oral.
De onde a teria conhecido frei Hermenegildo de Tancos, no séc. XIV?

Chosróes Nunshivan, rei da Pérsia no séc. VI, enviou à Índia o seu médico Burzuyeh em missão intelectual. Ao regressar, o doutor apresentou uma coleção de contos, apólogos morais, populares na Índia, traduzidos para o peelvi. O original seria o sânscrito e figuravam dois chacais, dialogando proeminentemente, narrando exemplos. Chamavam-se Karataca e Damanaca, os dois. O doutor Barzuyed intitulou sua antologia Kalila e Damnag, nomes em peelvi dos chacais. Duzentos anos mais tarde, século VIII, um persa que se convertera ao islamismo, Abdallah ibn Almokaffa, ministro do sultão Almansor, califa de Bagdad, verteu para o árabe o Kalilag e Damnag, dizendo-a Kalilah e Dimnah. Este volume teve a mais extraordinária repercussão que é possível supor. Traduzido, imitado, plagiado, comentado, deu nascimento a centenas de histórias, lendas, contos dispersos por toda a parte, de Europa e Ásia.

Qual teria sido o original do Calila e Dimna? Ignora-se. Há um fundamento comum, uma série de apólogos, játacas, que aparece numa coleção famosa, o Panchatantra, segundo Teodoro de Benfey redigido por um monge budista ao correr do século III. Outra coleção, posterior ao Pantachatantra, é o Hitopadexa, cujo mais antigo manuscrito é o de Nepaul, em 1373. Das quarenta e três histórias do Pantchtantra, vinte e cinco figuram no Hitopadexa. Há dezenas de traduções de ambos. Não sei se existe versão portuguesa do Pantchatantra. Do Hitopadexa possuímos a do mons. Sebastião Rodolfo Dalgado, publicada em Lisboa, 1897, diretamente do sânscrito.
Quando Almansor reinava em Bagdad, o soberano mouro da Espanha era Abderraman. Esses volumes passaram a ser leitura fácil aos letrados da época, através do árabe de Abdallah ibn Almokaffa.
Calila e Dimna, como diziam popularmente, passou para o hebreu no século XII, pelo rabi Joel e no imediato por Jacob bem Elazar. Entre 1263 e 1278 um terceiro judeu, João de Cápua, passou para o latim, mudando o título: “Directorium humanae vitae alias Parabolae Antiquorum Sapientum”. A primeira versão espanhola do Directorium humanae vitae é feita em Saragoça de Aragão, março de 1943. Já o nosso frei Hermenegildo de Tancos falecera.
Conhecera ele, certamente, as traduções latinas, especialmente a de João de Cápua, em cópias manuscritas, porque a edição princeps é de 1480.
Antes desse movimento de traduções e cópias, já a Calila e Dimna, do árabe para o castelhano, vivia em mão latina. O rei Afonso o Sábio mandara traduzir, romançar como se usava, desde 1261.
No Cancioneiro de Baena os versos populares denunciam essa divulgação:

Reyne de Byrra todo su feresa
E las falsedades de Cadyna Dyna...
Que mudan discórdias, consejos peores
Que Dyna e Cadyna com su lealdad...
Esses versos dizem também da reação contra a Calila e Dimna que se ia tornando regra moral, às avessas da imposição cristã. Bispos e pregadores se insurgiram. Combatendo. Menendez y Pelayo estudou, com a inimitável erudição e clareza de sempre, esse período, Orígenes de la novela, I, 39, Ed. Glem, Buenos Aires, s.d. Pantchatantra, Hitopadexa e Calila e Dimna são fontes comuns da mesma história de frei Hermenegildo de Tancos, o conto vivo no Brasil, com o processo idêntico da persuasão, convertendo em cão o carneiro do Hitopadexa, o bode do Pantchatantra e o cervo do Calila e Dimna. E por quê o aldeão em Portugal e Brasil abandona o cachorro, revoltado, como se tivesse pecado mortalmente? É um vestígio positivo do baustein indiano. O cão é animal imundo para o brâmane. Julgando trazer um carneiro e deparar um cão, contaminara-se com seu contato proibido. E fora obrigado a fazer abluções rituais. A estória original é a mesma nas três fontes, Pantchatantra, livro III, n. 4, Hitopadexa, Sandhi, fábula IX, Calila e Dimna, capítulo VI, “cuento de los tres birbones y el religioso”.
Da versão francesa do Pantchatantra é esse tema, em sua forma mais antiga.
“Era uma vez um brâmane do bosque de Gautama, que tinha começado um sacrifício. E como ele fosse comprar um bode para o sacrifício a uma aldeia vizinha, enquanto voltava transportando-o sobre os ombros, viram-no três ladrões: – “Se conseguíssemos – discorreram então os ladrões entre si –apoderarmo-nos daquele carneiro por alguma astúcia, seria grande sutileza de engenho”.
Foram postar-se na estrada ao pé de três árvores, à distância de uma croxa, aguardando a passagem do brâmane. Quando este passava, perguntou-lhe um dos ladrões: – “Oh, Brâmane, como é que levas um cão aos ombros?” ­– “Este não é cão – respondeu o Brâmane – mas é um bode para o sacrifício”.
Logo adiante disse-lhe também o mesmo o outro gatuno. Assim, o Brâmane ouviu as suas palavras, pôs o bode em terra, examinou-o repetidas vezes, tomou-o de novo sobre os ombros e prosseguiu o caminho com o espírito vacilante. Depois que o Brâmane ouviu o que dizia o terceiro ladrão, convencido de que estava em erro, largou o bode, fez as abluções e voltou para sua casa. E os ladrões levaram o bode e o comeram”.
A técnica reaparece, aproveitada noutros episódios, ao correr dos séculos XV, XVI, XVII. No Decameron, novela terceira da nona jornada, Lebrun, Bulfamaco e Nelo adoecem Calandrino afirmando que ele está pálido, abatido e trêmulo. No Le XII Piacevoli Notte de Gio Francesco Straparola de Caravaggio, edição de Veneza, 1584, Scarpacifico é convencido por três ladrões de que o mulo que comprara é um asno, abandonando-o na estrada, Notte I, Fábula II, 20-21.

O conto que divertiu aos indus há dois mil anos, foi lido em quase todos os idiomas da Terra, continua sua doce missão entre os homens e as crianças do Brasil.

Um comentário:

Deise disse...

Olá, parabéns, estou adorando suas postagens, estão muito ricas,
Abraços