terça-feira, 23 de junho de 2009

PANTCHA TANTRA - POSTAGEM 3



4 - A QUEDA E A ASCENÇÃO DE UM MERCADOR

Na cidade de Vardhaman vivia um rico mercador chamado Dantila. Ele ofereceu uma grande recepção por ocasião de seu casamento, e a ela compareceram o rei, a rainha, os ministros e todas as pessoas ricas e influentes da cidade. Presente também estava Gorambha, um humilde faxineiro da casa real. Quando Dantila o viu ocupando um lugar reservado aos nobres, ordenou a seus empregados que o enxotassem de sua casa.
Insultado, Gorambha pensou consigo: “sou pobre, por isso não tenho como revidar adequadamente a alguém tão rico como Dantila. Devo então, de algum modo, conseguir que o rei deixe de favorecê-lo”. Começou assim a montar um plano para vingar-se do mercador.
Certa manhã bem cedo, quando o rei ainda dormia, Gorambha começou a varrer o quarto do rei, murmurando em voz alta: “Oh, como é arrogante esse Dantila! Teve mesmo a audácia de abraçar a rainha”! Acordando com estas palavras, o rei quis saber se aquilo era verdade. Então, Dantila abraçara a rainha?
“Oh, Majestade, não me lembro sequer o que acabei de dizer! Na verdade, estou dormindo em pé, pois passei a noite inteira jogando”, disse o faxineiro.
Não satisfeito com esta resposta, o rei pôs-se a pensar. Qual seria a possibilidade daquele serviçal realmente ter visto Dantila, que tinha livre acesso à casa real, abraçar a rainha? Lembrou-se das palavras dos sábios: os homens, durante o sono, mais facilmente falarão sobre o que viram, ouviram e desejaram durante o dia. Mulheres mantêm a pureza enquanto os homens não adentram seus quartos – por isso, temem serviçais indiscretos. Convencido de que Dantila havia de fato abraçado a rainha, o rei proibiu sua entrada na casa real.
Esse fato afligiu Dantila, que não havia praticado qualquer injúria ao rei ou a seus parentes nem mesmo em sonho.
Certa vez, Dantila tentava entrar no palácio e era mais uma vez impedido pelos homens do rei. Vendo isto, Gorambha disse a eles; “Seus tolos, vocês estão impedindo o grande Dantila, que ganhou os favores do rei. Ele é poderoso. Se o barrarem, terão por suas mãos o mesmo fim danoso que eu tive um dia”.
O mercador imaginou que poderia ser proveitoso satisfazer Gorambha e tê-lo como confidente. Uma noite, convidou o faxineiro para o chá e o presenteou com roupas caras. Então disse a ele: “Amigo, nunca tive a intenção de insultá-lo. Mas você ocupava um lugar que eu havia reservado a um erudito. Gentilmente, peço-lhe perdão”. Tocado, o serviçal prometeu conseguir novamente, para Dantila, os favores do rei. No dia seguinte, repetiu a mesma cena, fingindo falar casualmente, delirando que o rei comia pepinos na sala de estar.
“Que bobagem é essa?”, esbravejou o rei. “Por acaso já me viu fazendo esse tipo de coisa”?
“Não Majestade, sequer me lembro do que disse. Na verdade estou dormindo em pé, pois passei a noite inteira jogando”.
O rei então percebeu que se o faxineiro delirava nesse momento, o que havia dito sobre Dantila também era delírio. Alguém como Dantila não poderia ter feito o que Gorambha dissera. O rei também sentira que sem Dantila os negócios de estado e a administração civil estavam paralisados. Assim, imediatamente convidou o mercador ao palácio e restituiu sua autoridade e seu lugar junto a si.

Damanaka concluiu: “Eis porque devemos nos lembrar que o orgulho sempre precede uma queda”. Sanjeevaka concordou. Damanaka então levou-o à presença do rei Pingalaka. Após trocarem amabilidades, o rei perguntou ao novilho sobre seu passado e as razões de estar naquela selva. Após ouvi-lo, o rei disse, “Amigo, nada tema. Eu lhe asseguro que o protegerei dos animais selvagens, pois que, aqui, mesmo os mais fortes têm medo”. A partir de então, o rei incumbiu Karataka e Damanaka de cuidarem dos negócios de estado, passando, alegremente, a empregar seu tempo na companhia de Sanjeevaka. Os chacais se preocuparam, pois, com a amizade de Sanjeevaka, o rei abandonou seus passatempos reais, tornando-se inativo. Pensaram os chacais gêmeos: “O rei não confidencia mais conosco, desde que Sanjeevaka tornou-se seu melhor amigo. Mantém-se também indiferente aos deveres do trono. Que devemos fazer”?
Karataka disse: “O rei não dá mais atenção a nossos conselhos. Mas é nosso dever inquiri-lo se isso é bom para ele. Os antigos sustentam que mesmo que o rei não queira ouvir bons conselhos, é dever dos ministros oferecê-los”.
“Está certo”, disse Damanaka. “O erro é nosso. O que ocorreu ao sábio e ao chacal não pode ocorrer a nós”.
Karataka então pediu que ele contasse o que aconteceu ao chacal e ao sábio.

Nenhum comentário: