terça-feira, 19 de maio de 2009

PANTCHA-TANTRA: ONDE TUDO COMEÇOU


OS CONTOS DO GRANDE PANTCHA TANTRA
Há muito tempo atrás, Amarasakti governava a cidade-estado de Mahilaropyam no sul da Índia. Ele tinha três filhos pouco inteligentes, que se tornaram para ele uma preocupação sem fim. Percebendo que seus filhos não tinham interesse em aprender, o rei chamou seus ministros e disse:
“Vocês sabem que não estou feliz com meus filhos. De acordo com os sábios, um bastardo ou um natimorto são melhores que um filho tolo. Que bem traz uma vaca estéril? Um filho estúpido traz desonra a seu pai. Como posso prepará-los para serem meus sucessores? Venho a vocês para que me aconselhem”.
Um dos ministros sugeriu o nome de Vishnu Sharma, um grande professor que desfrutava do respeito de suas centenas de discípulos. “É a pessoa mais competente para ensinar seus filhos. Confie-os a seus cuidados e logo e em pouco tempo verá a diferença”.
O rei chamou Vishnu Sharma e disse a ele “Oh, venerável mestre, tenha piedade de mim e introduza meus filhos nos estudos, e eu o farei senhor de cem vilas”.
Vishnu Sharma respondeu “Oh, rei, ouça minha promessa: cem vilas não me tentam a vender conhecimento. Conte seis meses a partir de hoje. Se eu não fizer de seus filhos grandes estudiosos, poderá exigir que eu mude de nome”.
O rei imediatamente chamou seus filhos e os confiou aos cuidados do sábio. Este levou-os a seu monastério, onde começou a ensinar-lhes As Cinco Estratégias: o Pantcha Tantra.
Cumprindo sua palavra, finalizou a missão que o rei lhe confiara em seis meses. Desde então, o Pantcha-Tantra tornou-se popular em todo o mundo como um guia para solucionar os problemas da vida.

Começa agora a série de histórias “A perda de amigos” – a primeira das cinco estratégias. Estão na forma de diálogo entre dois chacais: Karataka e Damanaka.

1 - A PERDA DE AMIGOS (Pancha Tantra, Parte I)
Há muito, muito tempo atrás, um mercador chamado Vardhaman vivia em uma cidade no sul da Índia. Certo dia, descansando em sua cama, ocorreu-lhe que o dinheiro era o machado do mundo e que quanto mais ele o tivesse, mais poderoso seria. Mesmo os inimigos procuram a amizade de um homem rico, ele disse a si mesmo. O velho torna-se jovem se possui riquezas, e o jovem torna-se velho se não as têm. Os negócios são um dos seis caminhos que podem ajudar o homem a reunir riquezas. Essa era a sua lógica.
Reunindo seus artigos, Vardhaman saiu, em um dia auspicioso, em direção a Madhura, à procura de mercados para seus bens. Em uma carroça alegremente decorada, puxada por dois novilhos, começou o trajeto. No caminho, cansado com o esforço do reboque, um dos novilhos, chamado Sanjeevaka, desmaiou na mata próxima ao rio Jamuna. Mas o mercador continuou sua jornada, ordenando a alguns servos que cuidassem do animal. Os servos, porem, abandonaram o novilho pouco depois de seu patrão tê-lo feito. Juntando-se a ele posteriormente, disseram-lhe que o novilho havia morrido.
Na verdade, Sanjeevaka não estava morto. Comendo a abundante, fresca e tenra grama da floresta,recuperou suas forças, começando então a explorar a jângal, dançando e cantando alegremente. Na mesma floresta vivia Pingalaka, o leão. Sanjeevaka, contente com sua nova vida na floresta, valsava e cantava ruidosamente. Um dia, Pingalaka e outros animais foram beber água no Jamuna, quando o leão ouviu o assustador bramido do novilho. Em pânico, o leão enfiou-se floresta adentro sem ter ainda bebido água, e parou adiante, com o pensamento confuso e rodeado por animais.
Percebendo a condição do rei, dois chacais, Karataka e Damanaka, filhos de dois ministros já despedidos, procuravam identificar o que ocorrera ao soberano.
“Que pode ter ocorrido ao rei da floresta?”, perguntou Damanaka.
“Por quê meter o nariz onde não fomos chamados? Nunca ouviu a história do macaco que puxou a cunha da tora?”, perguntou Karataka.
“Soa interessante. Por quê não me conta o que aconteceu ao macaco?”, disse Damanaka.
“Escute então”, disse Karataka, e começou a contra a história do macaco.

2 - O MACACO E A CUNHA

Certa vez, um mercador começou a construir um templo em seu jardim. Muitos pedreiros e carpinteiros trabalhavam para ele. Todos os dias, eles iam à cidade a certa hora, para almoçar. Um dia, quando os operários saíram, um grupo de macacos desceu ao jardim do templo e começaram a brincar com o que quer que atraísse sua atenção. Um dos macacos viu uma tora de madeira, parcialmente serrada e com uma cunha fixada na fenda, que por causa dela não se fechava inteiramente.
Curioso para saber o que era aquilo, o macaco começou, furiosamente, a puxar a cunha. Até que o pedaço de madeira saiu, fazendo com que a fenda se fechasse prendendo as pernas do macaco. Sem conseguir se libertar da armadilha, em pouco tempo o macaco morreu.
“Desta maneira”, Karataka disse a Damanaka, “não é inteligente enfiar o nariz onde não fomos chamados. Temos estoque de alimentos. Por quê devemos nos aborrecer com esse leão”?
Damanaka retorquiu: “Comida não é o centro da vida. Os antigos diziam que os homens sábios procuram a ajuda do rei pra auxiliar os amigos e prejudicar os inimigos. Existe uma centena de maneiras de se conseguir alimento. Mas o que importa é uma vida cheia de aprendizado, coragem e riquezas. Se viver de qualquer maneira fosse a meta, mesmo uma gralha viveria bem com as sobras”.
“É verdade, mas nós não somos mais ministros. Os antigos também diziam que o estúpido que dá ao rei conselhos que este não pediu, atrai não apenas o insulto, mas também a falsidade”, disse Karataka.
“Não”, Damanaka disse então, “qualquer um que sirva ao rei com devoção tem a chance de, ao final, receber seu favor. Aquele que o faz não permanece no mesmo lugar em que está. Os que compreendem porque o rei está irado ou generoso terão, um dia, sua promoção. É preciso esta compreensão para cair nas boas graças do rei”.
“Então, o que você quer fazer agora?”, perguntou Karataka.
“Você sabe que o rei está assustado. Vou perguntar-lhe a razão de seu susto e usar os seis caminhos da diplomacia para aproximar-me dele”.
“Como você sabe que o rei está assustado”?
“Mudanças de postura, sinais, o ritmo do passo, ações, conversas, olhares e expressão indicam os processos da mente. Vou identificar a razão do medo do rei e, com minha inteligência, dissipar este medo. Então, serei ministro novamente”, disse Damanaka.
“E como poderá sê-lo, se não conhece as regras do serviço?”, perguntou Karataka.
Damanaka disse-lhe tudo que sabia e aprendera sobre o que deve fazer um leal e bom servidor do rei.
“Neste caso, desejo-lhe boa sorte”, disse-lhe Karataka.
Damanaka deixou-o, indo em busca do rei. Reconhecendo nele o filho de seu antigo ministro, o rei Pingalaka disse à sentinela que o trouxesse à sua presença. Damanaka ajoelhou-se em respeito ao rei.
“Faz tempo que não vejo”, disse o rei.
“Meu senhor, não sei que utilidade eu poderia ter para Sua Majestade. Mesmo assim, diz a tradição que há ocasiões em que qualquer um, nobre ou plebeu, pode ser útil ao rei. Por gerações temos servido ao rei com devoção. Todavia, encontro-me longe das benesses de Sua Majestade”.
“É verdade, competente ou incompetente, você é filho de nosso antigo ministro. Vá em frente, diga-me o que está pensando”, ordenou o rei a Damanaka.
“Posso humildemente perguntar, Majestade, por quê Sua Alteza se afastou do lago (lago ou rio?) sem beber água?”, Damanaka perguntou com relutância.
“Damanaka, não ouviu aquele som distante, alto e assustador? Eu quero deixar esta floresta. O estranho animal capaz de emitir tais sons deve ser tão poderoso quanto o barulho que ele faz”.
“Majestade, se é apenas o som o seu problema, gostaria de sugerir que estes sons são enganadores. Posso contar-lhe a história do chacal, já que ela ajuda a vencer o medo dos barulhos”.
“Vamos ouvi-la”, disse o rei.

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