segunda-feira, 20 de abril de 2009

PANTCHA-TANTRA - onde tudo começou


Um constante processo de migração de hábitos e costumes, de um país para outro, de um povo para outro, de uma cultura para outra, fez com que um grande número de histórias, lendas, temas e motivos despontassem, com pequenas variações, nas mais distantes latitudes. Uma história conhecida na Grécia Antiga surge ainda mais anciã na África Negra. A Borralheira aparece em Portugal, na China e entre os índios norte-americanos. A Pele de Asno francesa parece dever algo à Hatikazuki Hime japonesa. A lista de correlações é infindável e aponta para todas as direções.

Uma indicação, porém, parece inequívoca: “a velocidade inicial” (ou seja, a origem primeira, no dizer de Câmara Cascudo) de um número considerável de temas aponta para a velha Índia. Há uma unanimidade (nesse caso, nada burra) entre folcloristas e etnógrafos de que as grandes narrativas épicas hindus (principalmente o Pantcha-Tantra, o Mahabaratha e o Ramayana) estão na raiz de grande parte do conjunto de lendas, fábulas e contos ocidentais e do Oriente Médio. Percorrendo um trajeto que, grosso modo, atravessa a Pérsia e a Península Arábica, desembocando na Europa a partir das invasões mouras, este repertório encontrou ressonância em todos os povos, e unindo-se às tradições regionais de cada um, gerou muitos dos grupos temáticos e das estruturas narrativas que ainda hoje verificamos em todos os continentes.

Dos três grandes épicos citados acima, a maior contribuição se deverá, talvez, ao Pantcha-Tantra. Atribuído ao educador Vishnu Sarma, teria sido escrito entre 200 a 400 anos antes da era cristã, tendo como base narrativas orais pré-existentes, e é considerada a mais antiga coletânea de fábulas em idioma sânscrito. Seu título traduz-se como “Os Cinco Livros” – e propõe-se ser um conjunto de regras de comportamento, ou de exemplos, nos quais os jovens deveriam se basear para solucionar os problemas da vida, do cotidiano e das relações. As histórias são contadas por dois chacais, Karataka e Damanaka, num formato de narrativa de moldura (em que dois ou mais personagens, premidos por alguma espécie de situação, contam histórias uns aos outros) que por si só deixará seguidores séculos depois, como o famoso “Decamerone” de Bocaccio. Ao mesmo tempo, o fato de a maioria dos personagens serem animais nos remete imediatamente às Fábulas de Esopo.

Para divulgar e discutir esse tesouro do imaginário, a Cia. de Lendas passa a publicar no seu blog, quinzenalmente (quando possível, semanalmente) as histórias do Grande Pancha-Tantra – sabendo, desde já, que o texto de que hoje dispomos é provavelmente um tanto distante do original de Vishnu Sarma, este dado como perdido. Ainda assim, é uma oportunidade de conhecer, mesmo que por aproximação, a origem daquilo que hoje constitui o ofício e a profissão (no sentido mais extenso e caro destas palavras) de muitos de nós: a ars, a thèkné, a ex-ducere, a milenar e talvez imortal arte de contar histórias.

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